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O Brasil tem tudo
para crescer na crise
Informe
do presidente do PPL, Sérgio Rubens de Araújo Torres, ao 1º
Congresso Nacional do Partido, realizado em 30 de agosto de
2009.
Receita
para crescer é mercado interno e tratamento preferencial do
Estado às empresas genuinamente brasileiras, nos financiamentos
e encomendas.
Estamos vencendo mais uma etapa na construção do Pátria Livre, a
do 1º Congresso Nacional, precedido dos congressos Estaduais em
10 estados (RS, PR, SP, RJ, DF, GO, CE, PE, RN, MT).
No dia 21 de abril, no Congresso de Fundação, aprovamos um
extenso programa para completar a Independência Nacional, razão
pela qual minha proposta é a de que aprovemos esse programa.
No entanto, como se passaram quatro meses daquela data, vou
procurar dar uma panorâmica das principais ocorrências no plano
nacional e internacional, particularmente sobre a evolução da
crise.
Vamos partir daquela afirmação de Marx no livro 3 de O Capital,
que já debatemos em reuniões anteriores: “O monopólio é a
negação do modo de produção capitalista”.
É uma definição de grande relevância e utilidade para os dias de
hoje.
A ela acrescentamos um pensamento de Roosevelt, extraído da
mensagem de 29/04/1938: “O poder de poucos para dirigir a
vida econômica da nação deve ser difundido entre muitos ou ser
transferido ao público e a seu governo democraticamente
responsável... Se a atividade econômica deve ser organizada pelo
plano e não pela concorrência, esse poder não deve ser confiado
a nenhum grupo privado”.
Soa como uma afirmação radical? De fato, é radicalmente
antimonopolista. Porém, Roosevelt não teria levado os EUA a
saírem da crise de 1929, produzida pela ação dos monopólios, se
os tivesse tratado a pão-de-ló.
A crise de 1929 foi duríssima. Segundo Galbraith, “em pouco
mais de dois anos cortou quase à metade o valor da produção
nacional e deixou 12 milhões de trabalhadores – 10,5 milhões a
mais que em 1929 – sem emprego”.
Desde o final da 2ª Guerra Mundial, a pressão dos monopólios foi
afastando os EUA do caminho indicado por Roosevelt, até chegar
ao Consenso de Washington (1989). Os quatro cavaleiros do
Apocalipse – abertura, desestatização, desregulamentação e
flexibilização das relações trabalhistas – assumiram as rédeas e
o neoliberalismo preparou meticulosamente a eclosão da grande
crise de hoje.
Nós afirmamos em nosso programa que: “Ao relaxar por completo
o controle social sobre os monopólios, o projeto neoliberal
firmado pelo Consenso de Washington acentuou no mundo a
desproporção entre a capacidade de produção e o nível de consumo
das grandes massas empobrecidas e levou a especulação – isto é,
a busca de mega-lucros à margem da produção – ao máximo. Quando
o volume de capitais artificialmente valorizados na ciranda
globalizada dos derivativos atingiu a casa dos U$ 500 trilhões –
o PIB mundial é de apenas U$ 62 trilhões – a realidade falou
mais alto e o sistema entrou em colapso”.
Se é verdade que o relaxamento do controle social sobre os
monopólios tem papel determinante nesta crise, nos parece
evidente que entupi-los de dinheiro público pode reduzir a
intensidade da queda, mas não vai revertê-la e vai agravá-la com
a adição de um monumental déficit público.
Diz ainda o nosso programa que: “É impossível prever o grau
de profundidade a que esta crise chegará e o seu tempo de
duração. O que se pode afirmar é que ambos estão na razão
inversa da capacidade dos governos e da mobilização popular
estabelecerem mecanismos de contenção das práticas que a
produziram”.
Em última instância, quais são esses mecanismos de contenção?
Sem o desejo de cansá-los, devo repetir a fórmula de Roosevelt:
“O poder de poucos para dirigir a vida econômica da nação
deve ser difundido entre muitos ou ser transferido ao público e
a seu governo democraticamente responsável”.
Se isso não está sendo feito nos centros imperialistas – e não
está – não há recuperação à vista. À exceção do programa de
Obama para a Saúde Pública, que apesar de bastante desfigurado
continua a despertar fortes emoções, os governos dos EUA,
Alemanha, Japão, etc. têm se limitado a transferir recursos
públicos aos monopólios, na esperança de que eles sejam capazes
de limpar a lambança que promoveram.
O estado da arte é o seguinte, conforme o relatório de julho do
FMI: EUA, previsão de queda de 2,6% do PIB em 2009; Zona do
Euro, queda de 4,8%, puxada pela Alemanha (- 6,4%); Japão,
previsão de queda de 6%.
A diferença entre esse relatório e o de abril é que as previsões
de queda para 2009 foram acentuadas – e compensadas, se é que se
pode falar assim, por tímidas indicações de melhoria em 2010
(EUA, aumento de 0,8% no PIB; Zona do Euro, queda de 0,3%;
Japão, aumento de 1,7%).
Mas a “recuperação” prometida se assenta em bases um tanto
duvidosas.
O economista-chefe do FMI assim as apresenta: “A boa notícia
é que as forças que puxam a economia para baixo estão reduzindo
de intensidade. A má notícia é que as forças que empurram a
economia para cima estão fracas. O saldo está mudando
lentamente, e isso nos leva a prever que, embora a economia
mundial ainda esteja em recessão, a recuperação está vindo. Mas
parece que será uma recuperação lenta”.
De tudo o que foi dito, nos parece que a única questão que ele
tem como certa é a de que a economia dos centros imperialistas
segue em recessão, 10 meses após a eclosão da crise.
Além disso, devemos confessar uma certa dificuldade de
compreender como o FMI compatibiliza a “recuperação” de 2010 com
a afirmação de seu diretor do Departamento do Hemisfério
Ocidental: “O desemprego provocado pela crise atingirá seu
ponto mais alto nos países industrializados no final de 2010”.
É interessante confrontar essa situação com a da China e da
Índia, os dois países mais populosos do mundo.
No dia 10 de novembro, o governo chinês anunciou um pacote de R$
1,23 trilhão em investimentos em obras de infra-estrutura,
estímulo à produção, novas instalações públicas, mais moradias e
melhorias das condições de vida para assegurar um crescimento de
9% em 2009.
“Com
a recessão mundial claramente à vista, a China deve se sustentar
a si mesma através do desenvolvimento do mercado interno para
compensar a demanda externa mais fraca”, registrou a agência de
notícias Xinhua.
A
China cresceu 6,1% no primeiro trimestre de 2009 e 7,9% no
segundo.
A
previsão do FMI é de que o país feche o ano com um crescimento
de 7,5% (em abril a previsão era de 6,4%). O governo chinês
continua sustentando os 9% anunciados em novembro.
A Índia, segundo o FMI, vai crescer 5,4% (em abril a previsão
era de 1 ponto a menos, 0,9 para sermos mais exatos). O governo
esclarece que as exportações indianas representam apenas 15% de
seu PIB e a previsão de crescimento para 2009 é de 6%.
Será que a China e a Índia estão surfando sobre a crise porque
suas economias apresentam menor grau de dependência dos centros
imperialistas e seus governos adotaram medidas no sentido de
reduzi-la ainda mais?
Será que a previsão de queda para o México é de 7,3% do PIB em
2009 pela razão inversa?
Seria simplismo afirmar que sim ou deveríamos cultivar o gosto
de complicar o que na verdade é simples?
Passemos ao nosso Brasil, companheiros. O FMI prevê uma queda de
1,3% do PIB em 2009 (o mesmo índice do relatório de abril).
O governo contesta e garante que vamos ter crescimento de 1%.
Considerando a histórica má vontade do FMI com o Brasil, não há
dúvida, ficamos com o governo: 1% de crescimento.
Mas, convenhamos, 1% é muito pouco. Não dá sequer para absorver
os novos contingentes de mão de obra que ingressam no mercado de
trabalho.
No entanto, muitos companheiros que estão no campo das forças
que como nós dão firme sustentação ao governo do presidente Lula
se põem a afirmar coisas desse teor: “Primeiro país a sair da
maior crise econômica internacional dos últimos 100 anos, o
Brasil consolida a retomada do crescimento econômico, agora
também na área das indústrias exportadoras, conforme apontam
dois levantamentos recentes, um da Federação das Indústrias de
São Paulo (Fiesp) e o outro a Sondagem Conjuntural da Indústria
de Transformação realizada periodicamente pela Fundação Getúlio
Vargas (FGV)... Se essas expectativas [vejam que são dados
subjetivos e não objetivos] se confirmarem, as exportações
nesse segundo semestre deverão atingir um faturamento 7,6% maior
do que o do primeiro semestre do ano, ainda que 33% menor do que
o do segundo semestre de 2008”.
Não faz sentido apresentar o Brasil como “primeiro país a sair
da crise” quando há quem esteja passando por cima dela. Pior é
comemorar como “consolidação da retomada do crescimento nas
indústrias exportadoras” uma queda de 33% em relação ao segundo
semestre de 2008.
Compreende-se que esses companheiros não queiram fazer coro com
o alarmismo (que é sempre reacionário), nem facilitar a
oposição, quando há uma eleição à vista em 2010. Mas fariam
melhor se dissessem que a depender dos tucanos e demos o Brasil
estaria hoje na mesma situação do México.
O que não se pode é fantasiar uma consolidação da retomada
quando a luta para que ela se dê está sendo disputada neste
exato momento.
Afirmamos em nosso programa que “no atual quadro de crise aguda
dos centros imperialistas as exportações e o crédito externo não
têm como crescer”. E não têm mesmo. Mas estes são obstáculos que
podem ser qualificados de pífios, pois o setor público “dá conta
de financiar a produção nacional, independente dos humores dos
bancos privados” e a relação entre exportação e PIB no Brasil é
mais baixa que a da Índia. Além disso, o Estado é um grande
consumidor. Por isso, a receita para crescer, especialmente na
crise, é mercado interno e “tratamento preferencial do Estado às
empresas genuinamente brasileiras, tanto nos financiamentos
quanto nas encomendas”, conforme foi aprovado na Constituição de
1988.
E podemos garantir que não existe outra.
Sintetizamos essa questão da seguinte forma: “Substituir as
importações e elevar o grau de nacionalização da produção nas
áreas que as subsidiárias das multinacionais vêm monopolizando
de modo crescente, com grandes prejuízos para o país, mais do
que princípio ou meta é a exigência do momento. A larga
experiência do Brasil nessa matéria consagrou a idéia de que nos
setores que o capital privado nacional puder desenvolver através
de uma saudável e estimulante concorrência a bola fica com ele.
Naqueles onde for impossível, o Estado deve entrar através de
empresas públicas”.
Como vimos, a fórmula de Roosevelt preconizava que nas áreas
onde poucos monopólios dirigiam a vida econômica da nação – isto
é, onde conseguiram transformar a concorrência em mera figura de
retórica - esse poder deveria “ser transferido ao público e a
seu governo democraticamente responsável”.
A experiência do Brasil nos autoriza a dizer que a forma
preferencial para que esse poder seja, de fato, exercido pelo
“público e seu governo democraticamente responsável” é através
das empresas estatais. Não conhecemos nenhuma alternativa mais
eficiente ao poder dos monopólios privados, particularmente
quando em sua grande maioria se constituem de subsidiárias de
corporações estrangeiras.
Capitais privados nacionais nas áreas onde predomina a
concorrência e empresas estatais nas áreas onde a concorrência
não é capaz de cumprir um papel de estímulo e regulação, são
estes, associados aos trabalhadores – porque sem o trabalho nada
é possível –, os elementos que representam o progresso e a
independência no interior da nossa economia.
No momento em que os monopólios entram em crise é de se esperar
que o governo busque fortalecer os elementos de progresso a fim
de que o país não seja arrastado para ela.
No entanto, o Boletim de Desempenho do BNDES mostra que o
principal instrumento nacional para o financiamento da produção
tem feito exatamente o oposto.
O relatório mostra que de janeiro a junho de 2009 a concentração
de empréstimos às grandes empresas aumentou, chegando a 77,27%
contra os 75,04% do primeiro semestre de 2008. Por outro lado, o
volume de empréstimos às médias, pequenas e microempresas caiu –
17,18% no primeiro semestre de 2009 contra 19,19% no primeiro
semestre de 2008.
O volume de investimentos do banco, compreendendo cada um dos
dois semestres, cresceu de R$ 37,800 bilhões para R$ 41,956
bilhões, mas cresceu também a concentração nas grandes empresas.
Considerando os desembolsos acima de R$ 100 milhões temos um
quadro de quem foram os principais beneficiados entre as grandes
empresas, já que nenhuma média, pequena ou microempresa tem
acesso a esses valores.
Entre outubro de 2008 e março de 2009 os monopólios estrangeiros
obtiveram 34,32% desses recursos, os monopólios internos 50,03%,
as empresas nacionais não monopolistas 12,17% e as empresas
estatais 3,4%.
Portanto, cerca de 80% foram destinados aos monopólios, com o
agravante de que quase a metade foi concedida a corporações
estrangeiras, cuja justificativa para entrarem no Brasil até
então vinha sendo a de suprirem nossa suposta insuficiência de
capitais para o desenvolvimento. Curiosamente, somos nós que
estamos suprindo a deles.
Entre abril e junho de 2009 as multinacionais ficaram com 40,50%
dos recursos provenientes dos financiamentos acima de R$ 100
milhões. As estatais e as empresas nacionais não monopolistas
receberam apenas 20,56%.
Poder-se-ia dizer que os R$ 25 bilhões de julho à Petrobrás
significam uma alteração substancial nesta completa subversão do
papel do BNDES.
Infelizmente, não. O Tesouro emitiu R$ 25 bilhões em títulos e
carimbou a verba. O papel do BNDES foi nulo. Todo o seu esforço
segue concentrado em favorecer o “clubinho” composto por Alcoa,
OHL, Imbev, Shell-BG, GM, Fiat, Tim, Vale, Votorantin, etc. – as
empresas que derrubaram o nosso crescimento puxando o desemprego
e procurando impor uma imoral redução de salários, enquanto
recebiam os recursos públicos.
Quem quiser saber por que a China e a Índia podem manter um
crescimento de 9% e de 6% com o centro imperialista em crise e o
Brasil não consegue passar de 1% em 2009, procure saber para
onde estão sendo destinados os investimentos públicos naqueles
países.
O governo Lula adotou duas medidas importantes para barrar a
crise: o plano para a construção de 1 milhão de moradias (um
projeto de grande alcance econômico e social) e a redução do
superávit primário.
No mais ficou no meio do caminho. A redução dos juros foi
tímida. As isenções fiscais beneficiaram principalmente os
monopólios (montadoras e linha branca). E a elevação do crédito
público não foi acompanhada de uma política que garantisse a
prioridade na chegada desses recursos aos setores
verdadeiramente dinâmicos da economia.
É necessário corrigir essas insuficiências para que o revés de
2009 não se estenda a 2010.
Afirmamos em nosso programa que: “A crise internacional nos
permite e nos exige acelerar o processo de independência
nacional”.
Está certo: permite e exige, porque quanto mais debilitados
estiverem os monopólios, especialmente os externos, menor a
resistência que podem opor ao nosso desenvolvimento, porém é
preciso não perder de vista que essa situação ao mesmo tempo os
induz a aumentar a pilhagem sobre o Brasil para ressarcir os
prejuízos contabilizados por suas matrizes.
Quanto a isso, nos últimos meses temos enfrentado um ataque em
várias frentes: desemprego; redução salarial; mil e uma
chantagens para se apoderarem dos recursos financeiros do Estado
Brasileiro; aumento das remessas de lucros (se não em valores
absolutos, pelo menos na proporção entre saídas e entradas); a
recusa das operadoras do estratégico setor de telecomunicações a
investirem o mínimo necessário para manterem em funcionamento os
serviços vendidos aos usuários; a elevação das tarifas de
energia elétrica; o avanço sobre os aeroportos públicos; a
manobra para retirar dos Correios o direito de entregar
encomendas – a parte mais rentável da sua atividade; o aumento
de 26% numa só tacada dos royalties cobrados pela Monsanto sobre
as sementes da soja transgênica; o PL-29 que pretende assegurar
às multinacionais o controle da TV por assinatura em troca de
meia hora (parece gozação, mas não é) de conteúdo nacional na
programação diária; o domínio cada vez mais asfixiante das
distribuidoras norte-americanas sobre o que é exibido nas telas
de cinema do Brasil; as manobras das multinacionais para entrar
no pré-sal...
Frente de luta, meus amigos, é o que não falta. Mas é natural
que seja assim. E nós não somos de reclamar do excesso de
trabalho, pelo contrário, tal situação só torna mais explícita a
necessidade histórica de um partido como o Pátria Livre e
reforça a necessidade de concluirmos rapidamente as etapas que
faltam para o seu registro definitivo.
Nesse conjunto de frentes a prioridade deve ser dada à batalha
pelo pré-sal. O projeto do governo dá um grande passo a frente,
mas não fecha definitivamente a porta para a presença das
multinacionais no pré-sal, com hegemonia nos blocos arrematados
em leilão.
Não basta que o novo marco regulatório afirme que o governo
poderá contratar, independente de leilão ou licitação, a
Petrobrás para explorar (e não só para operar) todos os blocos.
É preciso substituir esse “poderá” por “deverá”, como indica a
palavra de ordem do retorno da Lei 2004.
O fato é que as petroleiras internacionais nunca nos ajudaram a
encontrar uma gota de petróleo. Não existe, portanto, nenhuma
razão para que elas sejam privilegiadas com as reservas do
pré-sal, quando a Petrobrás têm todas as condições técnicas e
financeiras para explorar essa riqueza em proveito da nação.
O que falta para que o pré-sal seja efetivamente nosso é bem
pouco. O presidente Lula se agigantou nessa batalha e tem
cumprido com louvor a parte que lhe toca. Precisamos cumprir a
nossa.
Não vamos nos esquecer que o projeto que o presidente Getúlio
Vargas enviou ao Congresso Nacional em 1953 previa apenas a
criação da Petrobrás. Mas foi aprovado com um pequeno adendo, o
substitutivo do deputado Euzébio Rocha, que garantiu à empresa a
exclusividade sobre a pesquisa, a lavra e a exploração de
petróleo no Brasil.
Era isso que eu tinha a dizer.
Muito obrigado.
São Paulo, 30 de agosto de 2009.
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