|
“Completar a independência nacional será o principal
objetivo do Pátria Livre”
A “Carta ao Povo Brasileiro” que publicamos nesta página
foi aprovada no último dia 7 pelo Comitê Central do
Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), reunido em
São Paulo desde o dia 5 de dezembro.
Dirigentes e militantes vindos de todas as regiões do
país debateram, durante a reunião, o informe proferido
pelo secretário geral do MR8, Sérgio Rubens de Araújo
Torres, que avaliou as mudanças ocorridas na economia
brasileira nos anos recentes, a composição da frente
nacional necessária à realização das transformações que
nosso país e nosso povo necessitam - e as perspectivas
após a eclosão da crise nos EUA e demais países centrais.
“Os mais de 40 anos de experiência do Movimento
Revolucionário 8 de Outubro nas lutas políticas e
sociais do nosso povo nos dão a convicção de que para
fazer frente a esse momento é imprescindível o registro
de um novo partido político no Brasil”, diz a Carta que
sintetiza as conclusões da reunião. “Da letra do Hino da
Independência vem o nome deste novo partido que
convocamos a brava gente brasileira a construir conosco:
Partido Pátria Livre. Porque é exatamente disso
que se trata: concentrar todas as energias para
completar a grande obra da independência nacional. (….)
A maior parte dessa construção, que começou com
Tiradentes, passou por Getúlio e chegou a Lula, já foi
realizada. Mas a que falta deixa o país e o povo
vulneráveis à espoliação externa que tolhe o nosso
desenvolvimento econômico, político, social e cultural.
Concluí-la aceleradamente será o principal objetivo do
Pátria Livre”.
A primeira reunião da Comissão Organizadora do novo
partido, que está sendo formada, será em janeiro.
Carta ao Povo Brasileiro
O Brasil vive um momento decisivo da
sua história.
A crise econômica produzida pela
especulação irrefreada dos monopólios para obter mega-lucros
à margem da produção explodiu no coração de Wall Street
e se alastra pela Europa e o Japão.
As
superstições neoliberais, que livraram de qualquer
controle social a ganância devastadora das feras,
elevaram a níveis inauditos a desproporção entre a
capacidade de produção e o nível de consumo das grandes
massas empobrecidas – e acabaram por cobrar seu amargo
preço.
Nunca houve período em que os monopólios
desfrutassem de tamanha liberdade para afrontar a
resistência a seus interesses com os métodos que derivam
da sua condição intrínseca de perseguir um lucro além do
obtido pela extração direta da mais-valia de seus
empregados: fixação de sobrepreços, especulação, fraude,
suborno, espionagem, chantagem, intimidação, assassinato,
pilhagem e genocídio.
O grau de profundidade da depressão que
fatalmente ocorrerá nos países mais atingidos está na
razão inversa da capacidade dos governos e da
mobilização popular de estabelecerem sólidos mecanismos
de contenção dessas práticas - enquanto não for possível
superá-las por um ordenamento econômico onde as empresas
públicas ocupem o lugar dos monopólios privados.
Os
monopólios são o fruto podre e envenenado do modo de
produção capitalista. Brotaram da impotência do mercado
frente ao processo de concentração e centralização do
capital e se voltam contra ele para livrar-se das
amarras da concorrência e impor sua tirania. Por isso já
se disse, com muita propriedade, que seu surgimento
anuncia o esgotamento do sistema.
Mas seria tolice pensar que o socialismo,
por ser a alternativa mais avançada ao domínio dos
monopólios, seja a única opção quando se trata de
combatê-los efetivamente. O mercado não tem como evitar
o nascimento de seus edipianos rebentos. E, manietado
por eles, não pode restringir a sua ação. Mas o Estado,
a depender da força que tenham dentro e fora dele os
trabalhadores e o capital privado não-monopolista, pode
contê-los. Mais: pode evitá-los, e inclusive eliminá-los,
através da constituição de empresas estatais, sem que o
socialismo tenha sido implantado. Portanto, não é
recomendável fugir das complexidades da vida, porque a
conseqüência seria trocar a luta política por um
propagandismo estéril e imobilista.
Como toda a crise ocorrida no centro do
sistema imperialista, esta também pode, em decorrência
das medidas que adotemos para enfrentá-la, nos levar de
roldão ou fortalecer a nossa independência.
Os monopólios de mídia e a oposição, em
absoluta discrepância com os interesses da Nação,
difundem toda a espécie de boatos, pseudoteorias e
previsões alarmistas que possam ajudar a crise a se
introduzir no país.
No afã de re sponsabilizar
o presidente Lula pelas dificuldades econômicas que
adviriam desta invasão, os corvos semeiam a desordem,
sem medir as conseqüências. A perspectiva de poderem
extrair algum dividendo eleitoral do sacrifício do país
os cega para o alto preço que acabaria tendo que ser
pago por todos.
No entanto, é perfeitamente possível
derrotá-los mais esta vez, barrando a crise e acelerando
o crescimento econômico.
Antes de mais nada, é preciso reduzir as
taxas de juros astronômicas praticadas no Brasil.
Sem erradicar essa praga, cultivada pelos
setores interessados em transferir renda do setor
produtivo aos monopólios financeiros, nenhuma medida de
combate à crise terá eficácia e sequer será levada a
sério pelos agentes econômicos.
A própria imagem do Brasil no G-20
sofreria um dano considerável se ele fizesse
internamente o oposto do que nosso presidente aprova e
defende nas reuniões internacionais.
Paralelamente, é preciso intensificar o
processo iniciado pelo governo Lula de fortalecer a ação
do Estado na economia, através do investimento público,
da expansão do mercado interno, da ampliação da infra-estrutura,
da substituição de importações - e reforçá-lo com o
controle sobre o fluxo de capitais e a regulação
econômica estatal onde ela se fizer necessária. Em uma
palavra: retomar e aprofundar o projeto
nacional-desenvolvimentista, cujos alicerces foram
plantados na era Vargas, e depositar no lixo da história
os restos do modelo dependente em sua versão mais
extremada, a neoliberal.
O projeto nacional-desenvolvimentista tem
por base a aliança entre o Estado, os trabalhadores e o
setor privado nacional para defender o país da voragem
dos monopólios e promover, simultaneamente, crescimento
econômico e distribuição da renda.
Historicamente, quando ele foi implantado,
não tinha sentido falar de monopólios nacionais, pois
eram todos externos, ainda que mantivessem filiais no
Brasil.
Hoje, não se pode dizer o mesmo. No ramo
financeiro, no das telecomunicações, mineração,
siderurgia, petroquímica, construção e outros surgiram
empresas nacionais - nove entre dez cevadas à sombra do
criminoso processo de privatizações - que reproduzem as
práticas anti-sociais dos monopólios externos e
compartilham com eles o espaço nos mesmos cartéis para
açambarcar o mercado, esfolar consumidores, esmagar
fornecedores e sugar o Estado, bloqueando, em
conseqüência, o livre desenvolvimento das forças
produtivas nacionais.
Confundir esses setores com o capital
privado nacional não-monopolista seria um erro de
conseqüências desastrosas. A pior coisa que o governo
poderia fazer ao Brasil e a si mesmo no momento de
empregar o máximo de firmeza para conjurar a ameaça de
penetração da crise seria facilitar a qualquer espécie
de monopólio privado o acesso aos recursos públicos, em
detrimento dos setores que podem, de fato, alavancar o
desenvolvimento: o setor estatal e o setor privado
nacional não-monopolista.
Ao fazer balançar dentro dos EUA velhos
mastodontes como o Citibank, a General Motors e outros
tantos, a crise internacional abre largas avenidas para
o desenvolvimento do Brasil. Mas nenhuma delas passa
pelo fortalecimento da ação dos monopólios no interior
da nossa economia.
Mostra disso foi dada com a escandalosa
utilização do compulsório pelos bancos para adquirir
patrimônios e não para liberar crédito conforme o
prometido; com as falcatruas da Odebrecht, às expensas
do BNDES, no Equador e na Venezuela; com as manobras da
Vale do Rio Doce para catapultar o preço dos minérios;
com o seqüestro das máquinas dos agricultores do Mato
Grosso, por bancos que sequer lhes emprestaram recursos
próprios, pois operavam como repassadores de recursos do
BNDES; com a reedição da prática terrorista das
montadoras de usarem as férias coletivas como prenúncio
de demissões, apesar de receberem R$ 8 bilhões do setor
público - Banco do Brasil e Nossa Caixa - para financiar
as vendas de veículos.
É verdade que nosso dever de brasileiros
nos obriga a assumir a defesa de qualquer empresa
nacional (mesmo monopolista) nas eventuais disputas
resultantes de suas contradições com os monopólios
externos, pois as primeiras não têm por meta remeter
lucros - declarados ou não - para fora do país.
Porém, o mais importante é deixar claro
para o conjunto da sociedade o antagonismo entre os
monopólios privados de qualquer origem e a perspectiva
de desenvolvimento com distribuição da renda, o único
que interessa aos trabalhadores e à esmagadora maioria
do empresariado nacional - pois crescimento econômico
com concentração da renda é, e não tem como deixar de
ser, a ante-sala de todas as crises.
Ao contrário dos monopólios externos,
cujos 500 maiores controlam através de 420 filiais cerca
de 40% da nossa economia, os monopólios nacionais não
chegam a duas dezenas. A médio prazo, têm apenas duas
possibilidades: serem engolidos por monopólios externos
ou cruzarem as fronteiras para piratear os vizinhos.
Como a formação histórica, social e cultural do Brasil é
um poderoso freio ao exercício do segundo papel, o
caminho que acabaria se impondo seria a
desnacionalização dessas empresas.
Portanto, a idéia de compensar a drenagem
de nossos recursos para fora, realizada pelas
multinacionais estrangeiras, com a drenagem de recursos
para dentro, através de “multinacionais brasileiras”, é
um atalho que leva ao precipício. Ilusão vadia,
dispendiosa e suicida, quando implica em retirar
recursos vitais à expansão da produção interna para
financiar via BNDES - ou seja, com recursos do Fundo de
Amparo ao Trabalhador - uma versão caricata da aventura
ultramarina.
Hoje, mais do que nunca, o que interessa
ao povo brasileiro é avançar no caminho indicado pelo
presidente Lula com o PAC: crescimento econômico com
expansão do mercado interno - mais produção, mais
emprego e mais salário.
Para isso é indispensável ampliar, no
interior da economia nacional, o peso do setor estatal e
do setor privado nacional não-monopolista em relação aos
monopólios, pois no Brasil, assim como no mundo, são
eles a fonte dos maiores problemas e das maiores
desgraças.
Ao enfraquecê-los, a crise internacional
nos oferece uma oportunidade ímpar de acelerar esse
processo. Não devemos desperdiçá-la.
Os mais de 40 anos de experiência do
Movimento Revolucionário 8 de Outubro nas lutas
políticas e sociais do nosso povo nos dão a convicção de
que para fazer frente a esse momento é imprescindível o
registro de um novo partido político no Brasil.
Esse partido deve se guiar por cinco
pressupostos básicos:
1º. Que na atual etapa do nosso
desenvolvimento histórico a principal questão da luta
mais ampla e fundamental pelo avanço da democracia está
na superação das relações de produção dependentes, ou
seja, na conquista da plena independência nacional.
2º. Que esta luta corresponde às
necessidades e interesses de todos os setores da
sociedade brasileira, à exceção dos monopólios, e
implica na constituição de uma frente de forças
políticas e sociais que abrace e transforme cada vez
mais em realidade viva o projeto
nacional-desenvolvimentista.
3º. Que politicamente esta frente está
hoje constituída pelos partidos que integram a base do
governo, com destaque para o PT e o PMDB, que são os
maiores e mais influentes. A principal expressão e o
principal líder dessa aliança é o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. Fora dela o que existe é o retrocesso.
Por isso, utilizar reais ou supostas limitações da
frente para combatê-la, ao invés de lutar para
impulsioná-la, só tem levado setores que se pretendem à
esquerda ao vexatório papel de linha auxiliar das viúvas
do neoliberalismo encasteladas no PSDB e no Dem.
4º. Que o ritmo de desenvolvimento de
todo esse processo de lutas é ditado pelo grau de
consciência e organização de seus maiores interessados,
os trabalhadores. Portanto, a atuação do partido no
movimento sindical e nos movimentos sociais é
fundamental e decisiva.
5º. Que no horizonte da luta pela
ampliação da democracia está a construção de uma
sociedade socialista, onde o mercado, ao invés de
devastado pelos monopólios, seja superado pelo
planejamento consciente do conjunto das atividades
econômicas, à medida que os meios de produção se
convertam em propriedade pública, através de um Estado
que incorpore crescentemente às suas atividades as
amplas massas da população, até esgotar seu papel e
extinguir-se.
Da letra do Hino da Independência vem o
nome deste novo partido que convocamos a brava gente
brasileira a construir conosco: Partido Pátria Livre.
Porque é exatamente disso que se trata: concentrar todas
as energias para completar a grande obra da
independência nacional.
Esta obra ainda não foi concluída. Várias
gerações de brasileiros ao longo da história deram o
melhor de si para desenvolvê-la e obtiveram êxitos
notáveis. A maior parte dessa construção, que começou
com Tiradentes, passou por Getúlio e chegou a Lula, já
foi realizada. Mas a que falta deixa o país e o povo
vulneráveis à espoliação externa que tolhe o nosso
desenvolvimento econômico, político, social e cultural.
Concluí-la aceleradamente será o
principal objetivo do Pátria Livre.
O primeiro passo dessa caminhada é
recolher as 500 mil assinaturas, até o mês de junho de
2009, para que o PPL possa apresentar seus candidatos às
eleições de 2010.
Aos companheiros do PMDB, com os quais
tivemos a honra de conviver por mais de 30 anos no
interior da mesma estrutura partidária, repartindo o pão,
as glórias e eventuais desventuras, o nosso sincero e
comovido reconhecimento. Seguiremos juntos na grande
frente nacional que se aglutina em torno do presidente
Lula, pela qual tanto nos batemos e que, ainda mais do
que antes, continuará a contar com a nossa plena
dedicação.
São Paulo, 7 de dezembro de 2008
Comitê
Central do Movimento Revolucionário 8 de Outubro |